A maternidade real é bem diferente da propaganda de margarina

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Mãe ajuda filha a dar os primeiros passinhos (Foto: Gabi Trevisan)

Mãe ajuda filha a dar os primeiros passinhos (Foto: Gabi Trevisan)

Quando um casal pensa em ter um filho sabe que as despesas vão aumentar, que precisa pensar no enxoval, mas na cabeça dos pais de primeira viagem tudo será lindo como é mostrado na propaganda de margarina. Afinal, é essa maternidade que é diariamente mostrada por aí. Mulheres lindas, felizes, maquiadas, saradas cuidando do seu bem mais precioso com todo carinho e amor.

Mas, vou te contar uma coisa: ser mãe é osso. Quando a mulher engravida normalmente não pensa nas noites em claro que passará amamentando ou cuidando do filho doente, que os seios dela irão rachar e que as dificuldades para amamentar são comuns e reais. E outra: a maternidade é solitária pacas. No começo, você ficará exausta de tantas visitas que vão aparecer, mas aos poucos você fica isolada em casa, sem ajuda de ninguém para cuidar de você e também dos afazeres domésticos.

Ninguém pensa que muitos amigos vão se afastar – claro que outros virão – mas é fato que a vida não será mais como antes. Se você tem um emprego, pode ser que após a licença maternidade seja dispensada como acontece com muitas mulheres ou ainda decida sair do trabalho para ficar mais com seu bebê.

Uma coisa corriqueira, como ir ao banheiro fazer suas necessidades, não será nunca mais uma tarefa solitária. Normalmente você irá ao banheiro – quando conseguir ir – com um bebê pendurado no seio mamando, um verdadeiro ‘piercing’ de mamilo.

Ah, mas eles crescem. Sim, crescem, mas pode ter certeza que vão entrar no banheiro ou pelo menos bater na porta naquele seu momento de concentração fazendo cruzadinha ou lendo um gibi. A baladinha com os amigos, dormir até tarde no fim de semana e almoçar um X-salada são algumas das coisas que você sentirá falta após ser mãe. Enfim, a vida dá uma baita mudada, uma verdadeira reviravolta.

Claro que ser mãe é um ‘tesão’ e não preciso falar das infinitas maravilhas que a maternidade traz pois todo mundo sempre fala do amor incondicional, das realizações e blá, blá, blá. Mas, quem fala da solitária maternidade real? Ninguém.

Foi pensando nisso que a advogada Elisama Santos Conceição, mais conhecida como Elis, escreveu o livro “Tudo Eu”, para mostrar a maternidade de uma forma honesta. “As mulheres precisam engravidar sabendo que não viverão um conto de fadas. Maternidade traz um amor transcendental, mas também faz chorar em posição fetal embaixo do edredom.A verdade precisa ser dita!”, comenta Elis, que é  mãe de Miguel, 3, e Helena, 1.

Elis conta que desde que virou mãe vivencia coisas que não esperava da maternidade. “Inúmeras vezes me senti péssima mãe, senti pena do pequeno porque ele era meu filho. Na minha cabeça eu tinha algum defeito de fábrica, sabe? Mãe é só amor, ué! Até que comecei a dividir as dores e delícias do caminho com amigas virtuais e vi que não estava só! Sou humana. Desmistificar a maternidade me libertou”, conta. Para ela, escrever o livro foi a forma de libertar outras mulheres.

“Não é algo no estilo ‘culpa não’. É uma forma de abraçar outras mães e dizer que não estão sozinhas. É também uma forma de dizer para o mundo que maternidade perfeita não existe. Alimentar a imagem da super mulher nos escraviza. Santificar a relação mãe e filho também. Somos humanas, com todas as características dessa condição. Falar da maternidade real, dar voz às dores de muitas e muitas mães tem me movido. Gosto de falar que o livro desata o nó na garganta. Mães conhecem intimamente esse nó”, diz.

O livro está escrito em primeira pessoa e fala desde as decisão sobre ter um filho e as dificuldades para criar e educá-lo. “Falo das partes engraçadas da gestação, falo das dores, do que ninguém conta sobre ser mãe. Falo de colo, de casamento, de puerpério, de disciplina positiva…Conto minha história, que é igual a de tantas e tantas mães. Mas conto com realismo, sem firulas, sem filtros, sem dourar a pílula, sem colocar a mãe em um pedestal. A gente precisa falar sobre a maternidade como ela é!”, comenta Elis, que é casada há seis anos.

Ela conta que também retrata como a sociedade machista em que vivemos coloca o pai sempre como herói, paizão, por ‘ajudar’ a mãe a trocar a fralda ou dar banho nas crias. “Meu marido tem consciência que não é uma ajuda. Ele é pai e cumpre uma obrigação”, diz.

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