Aluno denuncia à Procuradoria casos de violência obstétrica em hospital universitário

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Projeto fotográfico dá voz às mulheres vítimas de violência obstétrica (Foto: Carla

Projeto fotográfico 1:4 dá voz às mulheres vítimas de violência obstétrica (Foto: Carla Raiter)

Um estudante de medicina da Universidade de Brasília (UnB) denunciou ao MPF (Ministério Público Federal) os casos de violência obstétrica que são realizados no Hospital Regional de Samambaia (HRSam), em Brasília. Segundo a denúncia, a indução do parto com ocitocina é feita de maneira rotineira assim que a gestante entra no hospital. A episiotomia (corte feito entre a vagina e o ânus), diz o universitário, é feita sem o uso de anestesia.

O relato do estudante diz ainda que as parturientes são proibidas de ter acompanhante, como é previso em lei federal, e sofrem com frequência ofensas verbais e também manobra de Kristeller.  Segundo a Procuradoria da República, há vários relatos informais de mães. Uma delas, após ser submetida a uma episiotomia, chegou a ouvir do médico: “para que ponto? Já ela faz outro. É bom que já tem espaço para o próximo.” Outras relataram que sofreram piadas vexatórias ao parir. “Nem parece que é o terceiro. Terceiro e tá nessa frescura” ou ainda “isso que dá querer ter filho, ano que vem tá aqui de novo”.

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Em uma recomendação, a Procuradoria da República diz que o papel dos dirigentes da faculdade de medicina da UnB foi desacreditar na denúncia do aluno e que não foram tomadas providências para “apurar os seríssimos fatos denunciados”.

Na época da denúncia, o hospital divulgou uma nota de repúdio dizendo que a denúncia era “infundada, caluniosa e que mostra despreparo e desconhecimento do referido futuro colega quanto às condições do sistema público”.  Nesta nota, a unidade de saúde ainda acrescenta que “sentimo-nos apunhalados pelas costas quando as pessoas que recebemos de braços aberto, mesmo sem obrigação de fazê-lo, agiram impulsionados por análise superficial e medíocre” e finaliza comunicando que não receberá mais acadêmicos de medicina naquela unidade de saúde lamentando “que este denunciante será nosso futuro colega”.

A procuradora da República Luciana Loureiro Oliveira relatou que após o estudante fazer a denúncia, que ocorreu no primeiro semestre deste ano, soube que os professores de medicina da UnB estariam pressionando e intimando os alunos durante as aulas para descobrir quem levou o caso a público. Alunos disseram que docentes têm feito “discursos extremamente depreciativos sobre a conduta de alguém ter representado os atos de violência obstétrica”.

Por conta dos casos de violência obstétrica no hospital e a atitude da universidade de não tomar providências sobre o assunto, o MPF deu um prazo de 15 dias para que os responsáveis pelo hospital pela faculdade de medicina da UnB instaurem procedimentos administrativos para apurar os casos de violência obstétrica.

A universidade também foi orientada a parar com qualquer ato de discriminação, intimidação e ameaça contra os alunos. Na recomendação do MPF também foi detalhado que a faculdade de medicina deve incluir no currículo aulas e discussões sobre humanização no atendimento de mulheres durante a gestação, pré-parto, parto, pós-parto e pós-abortamento. Procurados pela reportagem, a UnB ainda não se manifestou sobre as recomendações do MPF.

Já a Secretaria de Saúde informou que tem promovido oficinas nas unidades de saúde com o objetivo de sensibilizar todas as equipes a adotarem novas condutas e, assim, oferecer um tratamento mais qualificado às gestantes. Segundo a pasta, nove profissionais –  cinco obstetras e quatro enfermeiros obstétricos – participaram neste mês de um curso ministrado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, sobre urgências e emergências obstétricas e boas práticas de parto e nascimento.

A secretaria ressalta que “todas as grávidas recebem tratamento adequado e alguns hospitais da rede” e que  permitem a entrada de um acompanhante na hora do parto. Sobre as denúncias, a secretaria informa que “todas serão apuradas e encaminhadas à Corregedoria. Se ficar comprovado qualquer tipo de erro ou lesão, todas as medidas cabíveis serão imediatamente tomadas”.

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4 Comentários

  1. Tive meu segundo filho numa maternidade pública e pude constatar, durante minha permanência na enfermaria, a violência obstétrica sendo praticada reiteradas vezes. Percebi que esta conduta está diretamente relacionada a outras questões, como racismo, machismo e preconceito de classe. Varios tipos de dominação e violência sobrepostas. Muitíssimo grave! Urgwnte discutir, informar e tomar providências. Parabéns pelo post!

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