Como a publicidade infantil faz mal à alimentação do seu filho

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Criança em corredor de mercado com várias propagandas (Foto: Mães de Peito)

Criança em corredor de mercado com várias propagandas (Foto: Mães de Peito)

Pense nessa cena que provavelmente faz parte do seu cotidiano. Você entra com seus filhos na padaria para comprar somente pão e leite. Até aí, tudo bem. Ao passar no caixa, no entanto, se depara com praticamente uma “loja de brinquedos inteira” bem ao alcance dos pequenos. Alguns produtos, como balas e outras guloseimas nada saudáveis são mega atrativas para a garotada por um único motivo: têm na embalagem com o personagem que é o queridinho da vez dos pequenos.

É chocolate do Bob Esponja, é bala do Mickey, é bolacha do Homem-Aranha, enfim, não faltam produtos com personagens para encher os olhos da criançada que insiste em levar o produto para casa muitas vezes sem nem saber o que tem dentro. Fora alguns produtos que fazem comercial para a criança colecionar todos os brinquedinhos como acontece, por exemplo, em grandes redes de fast-food onde o lanche infantil vem sempre com um bonequinho ou similar.

O resultado disso tudo: a criança cada vez mais consumindo desde cedo alimentos com excesso de sódio, gordura saturada, açúcar, entre outros produtos nada nutritivos. Vale lembrar que as crianças são  responsáveis pelo processo decisório de 80% das compras da família, segundo pesquisa InterScience de 2003. E a imagem dos desenhos prediletos não fica restrita aos alimentos, mas está presente também em produtos de  higiene e até  de limpeza justamente para a criança “ajudar” os pais a escolher o que levar para casa.

OBESIDADE E DOENÇAS

A advogada Isabella Henriques, diretora do Instituto Alana, explica que esses alimentos e bebidas com baixo valor nutricional se tornaram parte do cardápio diário das nossas crianças, inclusive, em muitas escolas. “É por isso que os dados do IBGE mostram que temos 15% das nossas crianças são obesas e 30% delas está com sobrepeso. Esse número só irá crescer se nada for feito”, explica Isabella, que coordenadora dois projetos no Alana, o Criança e Consumo e o Prioridade Absoluta.

Sobrepeso e obesidade não são apenas questões estéticas, mas a criança poderá ter doenças prematuras como diabetes, doenças no coração, hipertensão, entre outros.

O caso é tão sério que a OMS (Organização Mundial da Saúde) defende o fim da publicidade de alimentos não saudáveis para as crianças e está elaborando um documento para orientar os governos a desenvolverem políticas públicas para reduzir o impacto do marketing de alimentos e bebidas com baixo teor nutricional sobre as crianças.

Crianças passam horas vendo propagandas na TV (Foto: Mães de Peito)

Crianças passam horas vendo propagandas na TV (Foto: Mães de Peito)

Isabella diz que muitas vezes as pessoas falam que os pais são os culpados por comprar os produtos ao fazer “todas as vontades dos filhos”. “É muito fácil colocar toda a culpa nas costas dos pais. A sociedade, o Estado também têm sua responsabilidade pois deve fazer a regulação da mídia”, comenta. O pai fala não uma, duas, três vezes, mas na quarta, naquele dia que está mais cansado, que o filho faz birra, que está  cheio de pepinos para resolver, acaba comprando.

A advogada diz ainda que os pais trabalham o dia todo e ainda sofrem com os assédios da publicidade que vem de todos os lugares, como pela TV, na revista, nas prateleiras do mercado. Mais de 85% das crianças brasileiras assistem a TV diariamente em um tempo médio de mais de cinco horas, segundo pesquisa do Ibope de 2011. Ou seja, os pais trabalham fora o dia todo e esse acaba sendo o cenário ideal para a publicidade infantil ocupar seu espaço.

COMO MUDAR ISSO?

A CCJC (Comissão de Constituição, Justiça e de Cidadania) da Câmara dos Deputados Federais, deve colocar em votação em breve o projeto de lei 5.921/2001, de autoria do deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB/PR),que busca a restrição do direcionamento de publicidade a crianças com até 12 anos de idade.

O projeto está em tramitação na Câmara há 14 anos e aguarda o parecer do deputado relator Arthur Maia (SD/BA) sobre sua constitucionalidade para ser votado pelos membros da CCJC. Por ter tramitação conclusiva, se aprovado o projeto irá direto para o Senado. “O projeto de lei original não especifica a questão dos alimentos, mas o relator pode mudar isso ao apresentar um novo texto”, diz.

A advogada explica que o Alana criou um site para que as pessoas divulguem o projeto de lei e, inclusive, entrem na aba do site Mobilize-se para mandar um e-mail padrão que é enviado automaticamente para os deputados.

O texto pede a aprovação do projeto de lei nos termos do texto aprovado em 2008, na Comissão de Defesa do Consumidor, de autoria da então deputada Maria do Carmo Lara. Para o Instituto Alana, o texto é o que melhor protege a criança, pois prevê a proibição de qualquer comunicação mercadológica dirigida ao público de até 12 anos de idade.

Parece exagero restringir a publicidade infantil, mas não é. Os pais, os educadores, enfim, a sociedade sabe, ou pelo menos deveriam saber, que os hábitos alimentares são formados ainda na infância, ou seja, se seu filho só come salgadinho de pacote e refrigerante não espere dele um adulto que vá consumir frutas e hortaliças.

No documentário Muito Além do Peso, por exemplo, é possível ver crianças que não reconhecem uma beterraba ou um simples mamão. O filme choca ao mostrar como a publicidade impacta na má alimentação das nossas crianças. Assista o documentário aqui.

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