Como lidar com o luto gestacional e perinatal; livros ajudam mães e profissionais de saúde

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A mãe Clarissa segura seu filho Martin no colo e se despede do bebê

“Já sangrando, perguntei para o ultrassonografista se ele tinha visto alguma coisa. E ele, secamente, respondeu: ‘Seu útero não tem nada dentro. Aliás, nem grávido parece que ele esteve’. E tudo o que eu queria escutar era que eu continuava grávida, apesar do sangramento. Enfim, eu ainda tinha sintomas. Foi como se naquele momento ele tivesse tirado de dentro de mim o filho que eu tinha planejado por tantos anos e carregado por várias semanas.”

O relato acima é de uma mãe que perdeu seu bebê com sete semanas de gestação. Perder um filho – seja na barriga ou fora dela – é algo que não dá para mensurar a dor. O luto ainda é um tabu em nossa sociedade e, quando falamos de perdas gestacionais ou neonatais ainda existe uma barreira pois praticamente ninguém reconhece essa perda. Normalmente, as mães ouvem frases como: “não era para ser” , “foi melhor assim”, “melhor pois podia ser um deficiente”, entre outras frases que são ditas para tentar consolar essa mãe, mas que não ajudam em nada.

Depois de passar por três perdas gestacionais, a psicóloga Heloísa Salgado decidiu que era preciso falar sobre o assunto, principalmente, para os profissionais de saúde que normalmente dão a notícia e atendem essa mulher logo após a perda. “Na minha primeira perda, sofri maus tratos do médico que fazia a ultrassom. Muitas mulheres que tiveram perdas gestacionais reclamam da maneira como receberam a notícia e da assistência recebida como se desconsiderassem que essa mulher tinha um filho.”

Heloísa conta que uma amiga dela passou por uma perda neonatal com 39 semanas de gestação no Canadá e viu que o atendimento foi muito diferente do que aqui no Brasil. “Lá existe um protocolo para esses casos e as mulheres são acolhidas”, relata Heloísa que, com a obstetra Carla Andreucci Polido, escreveu o livro “Como lidar: luto perinatal – Acolhimento em situações de perda gestacional e neonatal”, da editora Ema. No Brasil, explicam elas, não há um protocolo para os profissionais seguirem.

A médica diz que os profissionais de saúde, na sua formação, não são ensinados a lidar com más notícias.  “Falta a escuta, de perceber o sentimento daquela mulher. É preciso um atendimento um para um, ou seja, individualizar para poder se colocar no lugar daquela mulher”, comenta.

Normalmente, relatam as escritoras, as mulheres que acabaram de ter uma perda gestacional ou neonatal ficam na maternidade lado a lado com outras mães recém-paridas. O clima em uma maternidade é de vida e, constantemente, as mulheres enlutadas escutam os choros de recém-nascidos enquanto são atendidas.

A professora Perla Cristina Machado, 25 anos, perdeu seu bebê em fevereiro de 2017. Ela conta que o bebê parou de mexer e, ao procurar o hospital, foi confirmado o óbito. “Eu já tinha uma cesárea anterior e passei novamente pela cirurgia. Ainda no centro cirúrgico, pude me despedir da Heloísa”, recorda Perla, emocionada. Ela conta que teve um bom atendimento, mas que nem sempre é assim e, por isso, decidiu criar um grupo para ajudar outras mulheres que passam pelo mesmo que ela.

As autoras do livro contam que é muito importante que, no caso de um óbito, a equipe tenha cuidados para lidar com essa mãe. “Chamar o bebê pelo nome, a equipe informar sobre quais as opções a mulher tem naquele momento (esperar pelo parto normal ou induzir), quem ela quer que esteja ao lado dela naquele momento, se quer ou não ver e pegar o bebê no colo, se quer alguma cerimônia  religiosa, enfim, a equipe e os familiares devem oferecer as opções e ouvir o desejo dessa mãe”, explica Heloísa.

As mães que perderam seus bebês podem, inclusive, doar leite para os bancos de leite, mas normalmente são orientadas a enfaixar o seio, a tomar medicamento para secar o leite. Será que é isso que ela quer?”, questiona.

Ela conta que, no Canadá, as equipes fazem uma caixa de lembranças do bebê que é onde são guardados itens que vão preservar a memória do bebê.  Alguns itens que podem ser colocados na caixa são a mecha de cabelo do bebê (se tiver cabelo), digitais do pé e da mão (impressões palmares e plantares, à tinta); as pulseiras de identificação do recém-nascido, fotografias do bebê com a mãe e a família, primeira roupinha usada, entre outros.  “A equipe pode fazer essa caixinha e, na alta, oferecer para os pais que podem ou não aceitar. Muitas famílias se queixam depois de não ter recordações do bebê”, comenta Heloisa.

GRUPOS DE APOIO AO LUTO

A psicóloga orienta as mães a procurarem grupos de apoio e, atualmente, são vários que surgem no Brasil.  A jornalista Camila Goytacaz, que perdeu o seu segundo filho, José, com apenas 11 dias de vida, conta que buscou ajuda desses grupos para ser ouvida  por outras mulheres que passaram por isso ou que, como mães, simplesmente entendiam a sua dor. “O tempo ajuda, mas não dá conta de tudo. O que realmente faz diferença é a solidariedade, o apoio sincero, o abraço de coração, as palavras amigas, as lágrimas dos outros, inclusive de desconhecidos, estas é que me ajudaram a chorar a morte do meu filho.”

Ela conta que o mais difícil é a inabilidade total e completa da nossa sociedade em lidar com a perda, com a morte, com as enlutadas, com a dor, com a tristeza, com a solidão coletiva que perpetua todos os dias por não sabermos ou mesmo por não falar com quem perdeu um filho.

Quando José ainda estava na barriga, Camila fazia uma espécie de diário falando sobre os seus sentimentos, as expectativas para a sua chegada e que ele já tinha um irmão mais velho, Pedro, que o esperava para brincar.

Camila diz que durante os poucos dias em que seu filho esteve na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) , ela começou a compartilhar os textos na internet. Muitas das mensagens eram escritas quando ela estava ao lado do leito da UTI ou enquanto tirava leite para amamentar o filho. “Nos textos eu colocava toda a emoção que sentia, o medo de perder, a esperança pela melhora dele. A partir daí comecei a ver o impensável retorno positivo disso: mães  me contando como o meu relato reverberou para elas, de alguma forma, na relação com seus filhos. Como se emocionaram e como as minhas palavras sobre o quanto meu filho e seu destino não me pertenciam”, comenta a jornalista, que escreveu o livro “Até Breve, José”.

Segundo ela, aquela história ‘fora do roteiro’ da maternidade foi a ensinando a lidar com o não planejado e as suas reflexões começaram a fazer sentido para outras mães também. “E logo já não eram apenas mães: eram pais, avós, conhecidos e anônimos se envolvendo e querendo ler e entender sobre a perda e sobre José e sobre esta história que é do José, mas poderia ser do Miguel, da Mariah,  do Arthur, do Gabriel, e de tantas crianças que se foram tão cedo”, diz.

Motivada pela solidariedade de centenas de pessoas, Camila continuou a escrever depois que José morreu. “Acordava, chorava, sentava, escrevia, meditava, chorava, escrevia, dormia, chorava, escrevia. Escrever era minha rotina no luto, assim como chorar”, relata.

“As pessoas têm muito medo de falar da morte, de comentar sobre quem morreu ou de assumir que sim, os bebês também morrem, por razões e situações diversas, e isso faz parte da nossa  existência. A  dificuldade em poder falar abertamente sobre isso me  machucava, me colocava em uma condição ainda mais solitária”, comenta Camila, que compara a dor do luto a atravessar um deserto “uma travessia solitária, longa e triste”.

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