Creches impedem mães de levar leite materno para os filhos

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Mãe amamenta a filha antes do fim da licença maternidade (Foto: Bia Fotografia)

Mãe amamenta a filha antes do fim da licença maternidade (Foto: Bia Fotografia)

Manter a amamentação após o retorno ao trabalho é possível, mas não é nada fácil. Primeiro, a mãe precisa fazer um bom estoque, escolher a bomba que mais se adapta ou aprender a ordenha manual, além de lidar com toda tristeza e ansiedade de ficar longe do seu bebê. Se não bastasse tudo isso, há ainda um outro desafio: encontrar uma creche que aceite receber o leite materno congelado para que seja servido ao bebê na sua ausência.

Na rede particular, é possível encontrar várias escolinhas que permitem que o leite da mãe seja mantido exclusivamente. Se a mãe acha uma que não permite, por exemplo, sempre tem a opção de encontrar outra ou ainda  conversar e negociar com a escola para que o leite materno seja servido ao seu bebê. Algumas unidades, no entanto, fazem restrições como impedir que o leite materno seja dado a bebês com mais de seis meses de vida.

Na rede pública, porém, a situação é pior. O blog Mães de Peito entrou em contato com 12 CEIs (Centro de Educação Infantil) em todas as regiões de São Paulo. A informação dada é que em nenhuma delas o leite materno poderia ser levado.

Nas unidades as razões apontadas eram que nenhum alimento pode “vir de fora da creche” ou que não havia como armazenar e ainda que o cardápio da escola deve ser seguido por todas as crianças. A Secretaria Municipal da Educação diz que a orientação passada foi errada e que é possível levar o leite materno nas unidades (leia mais abaixo).

Uma das atendentes chegou a informar que um bebê na creche não precisa de leite materno e que deve tomar leite de fórmula como ocorre com os demais alunos. A OMS (Organização Mundial da Saúde) e o Ministério da Saúde, no entanto, recomendam o aleitamento materno exclusivamente até o sexto mês de vida e até a criança completar dois anos ou mais como complemento a outros alimentos.

A médica e membro da Ibfan (Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar),  Marina Rea,  diz que é um desafio  para as mães convencer as creches a não dar leite artificial para os bebês e que muitas acabam desistindo e introduzem precocemente a mamadeira e o leite em pó.

Foi o que aconteceu neste ano com uma funcionária pública de 36 anos que, temendo represálias, pede para não ter seu nome divulgado. Sem alternativa, ela teve de introduzir – contra a sua vontade – mamadeira e leite artificial no filho que frequenta uma creche pública de São Paulo. “Eu queria ordenhar e ele tomar só meu leite, mas essa opção não me foi dada”, lamenta. Agora, que o bebê está com nove meses, mama no peito apenas antes de ir para a escolinha e à noite.

Marina, que é professora da USP (Universidade de São Paulo),  comenta que outras mães que insistem em continuar amamentando muitas vezes optam em largar o emprego ou buscam alternativas, como achar algum familiar ou contratar alguém que possa ficar com o bebê enquanto a mãe trabalha. Em algumas creches – públicas e privadas – consultadas pela reportagem foi dada a opção da mãe ir até a escolinha amamentar o bebê, no entanto, nem todas as mulheres trabalham próximo ao local onde o filho está.

OUTRO LADO

Procurada, a Secretaria Municipal de Educação informou que a orientação dada foi errada e que as mães têm o direito de enviar o próprio leite para a creche que o filho frequenta.

Para isso, no entanto, ela precisa assinar um termo de responsabilidade onde está escrito que ela está ciente das formas corretas de armazenar e transportar o leite materno. A pasta diz que as Diretorias Regionais de Educação vão orientar as unidades sobre o assunto.

SEMANA MUNDIAL DO ALEITAMENTO MATERNO

Para chamar a atenção sobre o assunto, o tema deste ano da Semana Mundial de Aleitamento Materno organizada em todo o mundo  pela WABA (World Alliance for Breastfeeding Action),  é “Amamentação e trabalho – para dar certo o compromisso é de todos”. O evento, que acontece em agosto desde 1992, tem a intenção de conscientizar a sociedade sobre a importância do aleitamento materno e estimular as mulheres a continuar a amamentação após o fim da licença maternidade.

A médica diz que a semana tem o objetivo de apoiar a mãe que trabalha e ainda amamenta. “Queremos sensibilizar o RH [recursos humanos]das empresas para criarem sala de apoio onde a mulher possa retirar seu leite com higiene e apoio da comunidade para cobrir as mulheres do setor informal que deixam de amamentar ainda mais cedo pois voltam antes ao trabalho”, comenta. Atualmente no Brasil há apenas cerca de 100 grandes empresas que contam com salas de apoio a amamentação para as suas funcionárias.

Marina explica que a mulher precisa de apoio de várias pessoas para poder ordenhar, como do pediatra, do chefe, do colega de trabalho, da família. A médica comenta que muitos pediatras orientam a mulher a começar a dar leite artificial em vez de estimular e orientar a mulher a tirar o próprio leite para dar ao filho. “Ela também precisa de tempo para fazer a ordenha e de um espaço adequado”, comenta.

A professora comenta ainda que após o bebê completar seis meses, a mulher vai precisar de menos intervalos para fazer a ordenha e, quando ele completar um ano, não precisará mais tirar o leite no local de trabalho. “A mulher que sai para fazer a ordenha saí menos tempo e vezes que um fumante, por exemplo. Estudos mostram que essa funcionária também falta menos pois seu bebê fica menos doente por conta do leite materno”, comenta.

DIREITOS TRABALHISTAS

A médica diz ainda que as mães trabalhadoras precisam conhecer seus direitos em relação a lactação. As leis trabalhistas permitem que a  mãe que amamenta tire  dois intervalos de 30 minutos cada, durante sua jornada de trabalho, para fazer a ordenha ou alimentar o filho na escolinha se essa for próxima ou no local de trabalho da mãe.

Esses intervalos podem ser tirados até a criança completar seis meses de vida. Após esse período, vale conversar com a chefia para tentar uma negociação caso a mulher continue fazendo a ordenha.

Esses intervalos não podem ser descontados da remuneração nem do horário de almoço.

No caso das mães que não têm como amamentar em uma creche próxima ou preferem não fazer a ordenha no local de trabalho, é possível antecipar em uma hora a saída do trabalho.

A mulher também pode solicitar duas semanas para prolongar a licença caso ainda esteja amamentando. “A mãe que vai emendar as férias com a licença precisa primeiro tirar essas duas semanas da amamentação para então tirar as férias, ou seja, essa licença não pode ser concedida após as férias”, explica. O pediatra é o profissional responsável em fornecer esse atestado que deve ser entregue com antecedência para a empresa.

CUIDADOS COM O ARMAZENAMENTO DO LEITE MATERNO

O frasco onde o leite será armazenado deve ser lavado com água e sabão e fervido por 20 minutos

O leite pode ser armazenado na geladeira por um período de apenas 24 horas antes de ser consumido. Não armazena na porta da geladeira, mas em local mais fundo para deixar longe de alimentos com cheiro que o leite materno possa absorverleitematerno

O leite materno pode ser congelado por até 15 dias.  Prefira os frascos de vidro com tampa plástica.

Importante: o leite só pode ficar na temperatura ambiente por, no máximo, 30 minutos.  Ao transportar da empresa até a escola do filho, por exemplo, leve sempre em bolsas térmicas com gelo.

Para aquecer o leite materno use apenas o banho maria. Quando começar a formar as bolhinhas na panela, desligue o fogo e coloque os frascos. Para o leite refrigerado, deixe de 3 a 5 minutos e, para o congelado, de 10 a 15 minutos.

 COMO OFERECER O LEITE MATERNO AO BEBÊ

Não utilize mamadeiras convencionais pois o bebê pode ingerir uma grande quantidade e, por ser mais fácil de sugar, poderá deixar de mamar no peito

Existem opções para servir o leite como copo dosador,  copo de treinamento (para bebês acima de 4 meses) e  colher com ponta de silicone – conta gotas

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