Doença degenerativa descoberta na gravidez impede mãe de cuidar da filha

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Gabriela no primeiro contato que teve com a filha Flora (Foto: Arquivo pessoal)

Gabriela no primeiro contato que teve com a filha Flora (Foto: Arquivo pessoal)

A psicóloga Gabriela Carvalho Russo Matos, 36, sempre teve o sonho de ser mãe. A gravidez veio rápido,  mas diferente da maioria das mulheres ela não teve tempo para curtir o barrigão, amamentar  e preparar o enxoval da primeira filha. Quando estava com apenas dois meses de gestação, ela notou que algo não ia bem.

Era  setembro de 2013. Gabriela percebeu que estava com  dificuldades para urinar e que também perdeu a força em uma das pernas. Em seguida, ela começou a arrastar o pé. Vários exames foram feitos e a suspeita era de uma doença neurológica. A psicóloga passou por várias avaliações,  especialistas e o quadro dela só foi piorando conforme a gravidez avançava. O corpo de Gabriela foi paralisando. Primeiro, ela perdeu a visão, depois os movimentos dos braços e das pernas e logo vieram os problemas respiratórios. Dois anos depois a  família dela ainda não tem um diagnóstico fechado sobre o caso.

O marido de Gabriela, Eduardo Alejandro Leiva Matos, 35, diz que o casal planejava ter um parto natural, mas o tratamento médico que a gestante foi submetida fez com que o bebê nascesse prematuramente, por meio de uma cesárea, com apenas 28 semanas de gestação. “Nossa filha Flora veio ao mundo em novembro de 2013 com 1,4 kg e 33 centímetros. Foi entubada, teve convulsões  e sofreu uma pequena lesão no cérebro que foi diagnosticada como paralisia cerebral leve”, conta Eduardo.

Ele diz que a paralisia foi descoberta no início e logo iniciaram a fisioterapia. “Flora teve ainda um problema no coração e passou por uma cirurgia, mas ainda terá que fazer uma nova operação quando tiver 4 anos”, comenta o pai. A menina, que agora tem quase dois anos, leva uma vida normal, mas com vários cuidados extras. “Ela realiza tratamento de fisioterapia e fono duas vezes por semana. Ela não pode ir na escolinha pois pode ficar doente e perder tudo que conquistou até aqui. Já fala papai, mamãe e imita algumas palavras que falamos”, diz Eduardo.

O pai conta que foi um pesadelo ter que conviver com as duas mulheres da sua vida internadas na UTI (Unidade de Terapia Intensiva). “Todos os dias visitava as duas.  Uma das vezes a Gabriela pediu muito que eu ficasse do lado dela durante à noite e o hospital me cedeu um sofá cama para ficar com ela”. Flora teve alta apenas dois meses e meio após seu nascimento enquanto sua mãe ficou, ao todo, dois anos hospitalizada. “Depois de um tempo foi autorizada para alta com cuidados de home care. Somente assim fomos uma família pela primeira vez dentro de nosso lar”.

Gabriela logo no início da gestação (Foto: Arquivo pessoal)

Gabriela logo no início da gestação (Foto: Arquivo pessoal)

O PRIMEIRO ENCONTRO

O primeiro encontro entre mãe e filha foi emocionante e só aconteceu 48 dias após o nascimento, quando Gabriela pode enfim colocar a filha nos braços. “A Flora entrou no quarto dentro de uma encubadora. A Gabi já não enxergava e pedia para segurar a filha. As enfermeiras ajeitaram ela com muito cuidado no colo da mãe. Ela sentiu que um sonho foi realizado”, diz o pai, emocionado.

O casal mora com a filha no Campo Belo, zona sul de SP, e atualmente Eduardo, que é formado em comércio exterior, está desempregado. Ele se dedica exclusivamente aos cuidados das duas.

Eduardo conta que Gabriela sonha em voltar a atender os pacientes que sempre perguntam por ela na clínica que atuava. “Ela trabalhava das 8h às 22h, todos os dias. Ela adora a profissão e sempre  ajudou muita gente. Atendia muitas vezes até  quem não podia pagar. O desejo dela é voltar a fazer o que gosta,”comenta.

Os tratamentos de Gabriela são intensos e caros e só têm sido possíveis pois eles contam com a ajuda financeira de amigos e familiares.

Além dos cuidados de home care, Gabriela tem sessões de fisioterapia, fono e tem tratamentos com vários especialistas como psicóloga, psiquiatra, neurologista e também terapeuta ocupacional. “Conseguimos fazer tudo isso graças a ajuda dos amigos e de pessoas que conheceram a história da Gabi”, comenta Eduardo. O marido conta que atualmente a mulher está muito depressiva e triste. “Ela pensa muito na morte, mas o que dá força a ela é a nossa filha e saber que eu a amo muito”, diz Eduardo. A mãe dele recentemente mudou com a família para ajudar com a rotina intensa.

AUXÍLIO DOENÇA

Eduardo diz que pretende conseguir um advogado para que a mulher receba benefícios da Previdência Social. “Infelizmente o governo fechou as portas para nós e esse direito nos foi negado. A perícia médica disse que ela está apta a trabalhar. Dá vergonha e nojo do que acontece em nosso país onde tiram direitos de quem realmente necessita”, lamenta.  Eduardo comenta que por enquanto não tem como arcar com as despesas de um advogado para recorrer da decisão e conseguir o benefício.

Procurada a Previdência Social informou que a família de Gabriela deve entrar em contato pela Central 135 e pedir um novo benefício. Segundo a assessoria de imprensa, a família pode pedir que seja feita uma perícia domiciliar.

Gabriela fala com dificuldades e mexe somente os dedos da mão direita. Eduardo diz que a junta médica que acompanha Gabriela diz que há possibilidade de recuperação dos membros superiores e que dificilmente ela voltará a enxergar. “A visão foi muito afetada”. Os últimos exames mostraram novas lesões no cérebro de Gabriela e um novo plano terapêutico está sendo traçado. “O maior sonho dela é enxergar para poder ver a nossa filha”, diz.

Eduardo com a mulher e a filha em passeio no parque (Foto: Arquivo pessoal)

Eduardo com a mulher e a filha em passeio no parque (Foto: Arquivo pessoal)

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