Fabricantes de leite artificial patrocinam congresso de pediatras

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Leite materno é o melhor alimento para o bebê (Foto: Marcela Calif)

Leite materno é o melhor alimento para o bebê (Foto: Marcela Calif)

Duas das principais indústrias fabricantes de leite artificial são as patrocinadoras oficiais do Congresso Brasileiro de Pediatria, organizado pela SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) que acontece em Fortaleza (CE) no mês outubro. Mas, qual o problema disso ocorrer?

Imaginem a Souza Cruz (marca de cigarro) patrocinando congresso de pneumologistas. Não seria bizarro? O mesmo vale para a Nestlè e a Danone. Essa parceria é imoral e deveria envergonhar a todos os pediatras”, opina a médica neonatologista Ana Paula Caldas.

Ela ressalta que atualmente apenas cerca de 40% dos bebês de 0-6 meses estão em aleitamento materno exclusivo,sendo que quase 20% dos bebês que frequentam o pediatra recebem algum complemento já no primeiro mês de vida e 50% das crianças entre 6 meses e 2 anos consomem fórmulas lácteas ou farinhas.

LEIA MAIS: Médico diz que pediatras não entendem sobre amamentação

A pediatra diz que baseado nestes dados fica claro que os pediatras brasileiros não estimulam o aleitamento materno e não entendem sobre o assunto. “Na minha experiência pessoal com o ativismo, não tem um dia que eu não recebo e-mails de mães orientadas pelo pediatra a introduzir fórmulas para seus filhos, por variados motivos, a maioria facilmente contornáveis se o pediatra apenas se dispusesse a observar a mamada e soubesse o que fazer com o que está vendo”, observa Ana Paula.

A médica diz que o pediatra não prescreve a fórmula porque ganhou brindes e amostras  no congresso. “Ele prescreve porque a indústria que nos patrocina o leva a crer que seu leite é quase tão bom quanto o materno. Isso chama-se propaganda subliminar”, relata. Como no Brasil há normas que impedem a publicidade de leite artificial, o foco do marketing das indústrias passou a ser os pediatras. Leia mais sobre o assunto clicando aqui. Procurada pela reportagem diversas vezes durante uma semana,  a Danone não se manifestou. Já a Nestlè diz que os leites são voltados para as mães que por algum motivo não podem amamentar. A SBP diz que “e o apoio de empresas ou de órgãos públicos a seus congressos e outros eventos ocorrem de forma transparente e legal, não sendo permitido que isso influencie a atuação da entidade ou de seus filiados” (leia mais abaixo).

Patrocinadores do evento (Foto: Reprodução)

Patrocinadores do evento (Foto: Reprodução)

Ana Paula comenta que na década de 1950, a  Nestlè chegou ao Brasil vendendo a ideia que seu leite era melhor e mais nutritivo que o leite materno. “Na década de 50/60 eram comuns os concursos de ‘robustez infantil’, onde a mãe mandava uma fotografia do bebê gorducho em frente a uma pirâmide de latas de leite Ninho. Eu vi isso pessoalmente, ninguém me contou.  Rapidamente a amamentação virou ‘coisa de pobre’. Só amamentava quem não podia comprar leite Ninho”, recorda a médica.

Ela comenta que também era comum a distribuição de amostras grátis em maternidade, o que passou a ser proibido no Brasil. “Na África, isso teve um efeito devastador e virou um grande escândalo: as mães recebiam amostras grátis de fórmula infantil, desmamavam seus filhos e depois não tinham condições de comprar mais leite, ou de higienizar mamadeiras. Centenas de crianças morreram de desnutrição e gastrenterite em consequência disso”, afirma.

OUTRO LADO

Procurada pela reportagem, a SBP) informa que é incentivadora da amamentação e que faz várias ações, como a publicação e distribuição entre os pediatras de documentos científicos sobre o tema. “Também foi criado uma plataforma na internet específica sobre o tema, o que contribui para disseminar entre os pediatras e os pais e responsáveis a sua importância. Além disso, a SBP ofereceu suporte técnico ao Ministério da Saúde nos preparativos para a Campanha Nacional de Aleitamento Materno e patrocinou a Campanha Agosto Dourado, que estendeu por 31 dias uma série de ações em defesa da amamentação, levando aos pediatras e aos brasileiros esclarecimentos sobre a questão”. Em nota, a sociedade de pediatras diz ainda que “atua de forma autônoma e independente em prol dos temas pertinentes aos interesses da infância, da adolescência e dos pediatras brasileiros”.

Já a Nestlè diz que busca contribuir com a atualizações de profissionais da área de pediatria por reconhecer a importância desse trabalho na disseminação de informação qualificada para os pais. “Por isso, [a Nestlé]busca contribuir constantemente para a sua atualização profissional, por meio do apoio a congressos e seminários científicos em todo o Brasil, como os realizados pela Sociedade Brasileira de Pediatria, em total conformidade com a legislação vigente.

A empresa diz também que a comunicação sobre fórmulas infantis da marca é sempre voltada como o substituto mais adequado diante da impossibilidade do aleitamento materno. Em nota, a empresa diz ainda que a comunicação “é direcionada exclusivamente a pediatras e profissionais de saúde ligados à alimentação infantil, restringindo-se aos aspectos técnico-científicos dos produtos e sem qualquer direcionamento da sua opinião para a recomendação de marcas específicas”. A empresa ressalta que apoia a recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) de aleitamento exclusivo até o sexto mês de forma complementar até dois anos ou mais e que foi uma das pioneiras em implantar licença-maternidade de seis meses e instalar salas de apoio à amamentação para suas funcionárias.

11 Comentários

  1. Comparação preconceituosa a sua. As fórmulas fazem bem aos bebês que não podem ser amamentados.
    Se vc quer incentivar a amamentação exclusiva, ótimo. Mas não ataque o lado que não veio para prejudicar e sim para colaborar, somar.
    Ou vc prefere que voltemos à época das nossas avós quando não tinha as fórmulas especiais e davam outros alimentos bem menos nutritivos e muitas vezes não indicados para a idade (leite de vaca puro, leite ninho, água de arroz e etc? ??!

    • Cara Sandra, você leu o texto?
      O leite de fórmula é ótimo para a mãe que não consegue amamentar ou que não queira amamentar. Respeito isso! A escolha é da mulher. O que diz no texto é sobre a relação entre os médicos e a indústria do leite. O cigarro citado faz uma apologia apenas. Não é nenhuma ofensa para quem dá leite de fórmula nem estamos demonizando o uso do complemento

      • Acho que vc não sabe o que é analogia, já que cigarro é comprovadamente cancerígeno e não tem papel positivo algum na saúde de ninguém. É apenas um vicio.

        Já essa chatice demonizante da fórmula só faz com que nós, mães que precisamos do complemento, nos sintamos mal, culpadas e passíveis a ouvir todo tipo de bobagem de quem tem leite jorrando do peito.

        Ao contrário do cigarro, fórmula faz bem sim e tem papel importante no desenvolvimento de uma parcela dos bebês.

  2. A comparação com cigarro (que mata e não traz benefício algum) foi infeliz… mas a realidade de patrocínio é essa mesmo, já trabalhei no meio. A relação que se estabelece entre médico e indústria é bastante ambígua e a linha que separa a ética da corrupção é muito tênue… a formação médica na área da nutrição é péssima e a indústria acaba assumindo o papel de “ensiná-los “ sobre isso.

  3. Muito importante seu texto! O patrocínio da indústria aos congressos devia ser proibido, já que a falta de ética e pudor dos médicos não parecem ser suficientes para censurar esse claro conflito de interesses.

  4. Comparar leite artificial ao cigarro é uma péssima analogia.
    O incentivo ao aleitamento materno é ótimo e importante, porém é necessário mais empatia a outras situações e outras mães, que muitas vezes sofrem por algum motivo não poderem amamentar seus filhos, ou até mesmo quem fez essa escolha.

  5. A comparação é ridícula. O cigarro não traz nenhum benefício, ao contrário das fórmulas, que salvam vidas, quando bem indicadas. É, antes que vc pergunte, eu li o texto. O Brasil, ao contrário de outros países, já tem uma regulamentação da relação de fabricantes de leite com profissionais. Podemos estar engatinhando, mas estamos progressivamente melhorando.

  6. O que vejo com esses congresso foi o pelo que eu passei sempre quis alimentar meu bebê no seio mas sofri terror piscicologico por parte do quadro das enfermeiras e da médica que prescreveu contra minha vontade e autorização fórmula para meu filho e com isso cheguei até ter depressão pós parto pelo terror que fizeram comigo alegando se eu não desse fórmula estava matando meu filho de fome

  7. Concordo com a abordagem do texto. Vale a reflexão sobre a cultura do pouco incentivo dado às famílias que enfrentam alguma dificuldade com a amamentação. A grande maioria dos pediatras entende como certo indicar uma fórmula láctea ao invés de estudar maneiras de resolver as causas da dificuldade que aquela mãe tem para amamentar. Eu mesma tive muita dificuldade com minha primeira filha e facilmente tive ofertado pelo pediatra o famoso “complemento”. Por minha conta, porque queria muito amamentar busquei ajuda e uma enfermeira me deu dicas preciosas e me ajudou a resolver o problema. Amamentei exclusivo minha filha até o sexto mês e prolongamos até 2 anos e 4 meses a amamentação.
    Entendo que a maioria dos pediatras não fazem isso por mal, também lhes falta informação de qualidade em relação a como lidar com essas dificuldades.

  8. Qual é o bebê que não pode ser amamentado? Quais foram os motivos para o aleitamento materno não ter funcionado? Infelizmente as mães que, por diversos motivos, não puderam (ou não conseguiram) amamentar suas crias ficam ofendidas quando se fala do leite artificial mal indicado. Mães, não há lados nesta história… Estamos todas do mesmo lado, amamentando a cria ou não! Se o pediatra do seu filho indicou fórmula ao invés de solucionar o problema da amamentação, foi o patrocínio dessas empresas que imperou sobre nós, nesses congressos que insistem em dizer q o leite é para aquelas mães q não conseguiram amamentar… Pensem nisso! Nosso lado é um só:o das mães!!

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