Família tenta reconstruir a vida após mãe salvar filhos de incêndio

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Marcela com os três filhos (Foto: Arquivo pessoal)

A funcionária pública Marcela Zarif, 38, na cama com os três filhos (Foto: Arquivo pessoal)

Na madrugada do dia 3 de maio ela acordou com um forte barulho vindo da casa da frente, onde moravam o irmão, a cunhada e três sobrinhos. Em seguida, mais e mais estrondos que deram a sensação de que a casa tinha sido invadida por criminosos que quebravam tudo.

Ainda sonolenta, ela saiu descalça da cama e foi ver o que acontecia quando se deparou com a cunhada toda desesperada pedindo por ajuda. Foi ao encontrar Marcela Zarif, 38, que a educadora Tatiana Molon, 32, enfim notou que não havia bandido no imóvel, mas que o fogo consumia o sobrado da família localizado na Granja Viana, em Cotia (Grande SP). “Tentei entrar na casa de novo com ela, mas o fogo era muito forte e não conseguimos”, conta.

Marcela dormia na cama com a filha Gaia, 1, e os filhos Samuel, 10, e Damião, 6, estavam no outro quarto quando percebeu o fogo, que começou no piso inferior da casa. Antes de descer para procurar ajuda, Marcela trancou os filhos do lado de fora da varanda do quarto e deixou a caçula dormindo em sua cama, que era o cômodo mais afastado do fogo. “Não havia como ela descer com as crianças pois o fogo era muito forte. Já tinha tomado boa parte da casa e a fumaça era intensa. Ela disse depois que preferiu descer e procurar ajuda pois temia que ninguém a escutasse se gritasse por socorro”, conta Tatiana.

A educadora diz que ela e a cunhada tentaram apagar as chamas, mas sem sucesso. “Temos uma torneira que fica pingando e deixamos baldes para não desperdiçar essa água. Usamos vários, mas nada adiantou”, diz Tatiana, que também teve queimaduras e cortes nos pés ao pisar em vários cacos de vidro na casa.

Um vizinho, ao ouvir os gritos desesperados das duas, chegou para ajudar. “Tenho uma escada grande e a colocamos para a Marcela subir e pegar as crianças. Ela entrou de novo pois sabia exatamente onde as crianças dormiam. Primeiro, ela pegou a Gaia e a jogou para a gente. Depois, ela atravessou o corredor dos quartos para chegar até os meninos. Foi aí que ela inalou muita fumaça”, comenta Tatiana, mãe de Benjamin, 6, que dormia com ela em uma espécie de edícula nos fundos da casa de Marcela.

“Deixei a Gaia com o Benjamin enquanto fomos resgatar os meninos”, diz. Tatiana conta que enquanto Marcela atravessava o corredor ela e o vizinho deram a volta com a escada para chegar até a sacada do quarto dos meninos, que fica na parte de frente da casa. As crianças escaparam ilesas, sem nenhum arranhão. Ao saírem da casa, vários vizinhos já haviam chegado até o imóvel e conseguiram controlar o fogo antes mesmo da chegada dos bombeiros. “Os vizinhos achavam que aquele barulho todo era de uma festa. Ninguém fazia ideia de que era um incêndio”, comenta Tatiana.

Depois de salvar os filhos, Marcela desceu conversando e andando, mas uma vizinha médica viu a gravidade do seu caso e ela foi levada imediatamente ao hospital, onde foi entubada. O pai das crianças, o acupunturista Rodrigo Reis, 34, conta que não estava em casa naquela madrugada pois havia ido trabalhar como músico naquela noite.  “Fui direto ao hospital encontrar a Marcela. Foi desesperador”, diz Reis.

Tatiana conta que enquanto ajudava a resgatar Marcela os vizinhos foram fundamentais para acolher e cuidar das crianças. “Eles deram café da manhã para elas, colocaram para assistir desenho, as acalmaram. Eles foram essenciais assim como essa vizinha médica que fez a primeira avaliação da Marcela e das crianças”, comenta Tatiana.

PULMÕES COMPROMETIDOS

Dois meses após o incêndio, Marcela segue internada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) de um hospital particular de São Paulo. Segundo Reis, ela teve 30% do corpo queimado com queimaduras de segundo e terceiro graus. “Ela já fez vários enxertos, passou por várias cirurgias e ainda não tem previsão de alta”, diz Reis.  Os médicos estimam que Marcela ficará de seis a oito meses internada pois a recuperação é bem lenta.

Marcela na praia com Gaia, 1, Damião, 6, e Samuel, 10

Marcela na praia com Gaia, 1, Damião, 6, e Samuel, 10

O marido de Marcela comenta que, além das queimaduras, os pulmões de Marcela ficaram gravemente comprometidos. “Ela teve lesão, fibrose e depois da tomografia estávamos apenas esperando o médico dar a notícia de que ela não resistiria”, comenta. Os médicos, conta Reis, disseram que não haveria tempo dela aguentar por um transplante, por exemplo.

Sem muitas esperanças na recuperação da mulher, Reis decidiu buscar a cura espiritual de Marcela com o médium João de Deus, em Abadiânia, no interior de Goiás. “Digo que sou eclético na minha religião e um espiritualista. Depois da cirurgia espiritual, uma nova radiografia mostrou que os pulmões estavam 100% regenerados. Os próprios médicos atribuem esse fato a um milagre porque nunca viram isso acontecer”, comenta.

Apesar de perguntar sempre dos filhos, as crianças ainda não encontraram a mãe após o incêndio. “Quando ela me viu pela primeira vez perguntou dos meninos e eu disse que estavam bem, que ela tinha salvado todos. Ela ainda falou ‘não mente para mim’, pode falar a verdade pois temia que eles não estivessem bem”, comenta Tatiana. Por conta do estado da paciente ser ainda delicado, os médicos pedem que os familiares evitem falar sobre o incidente com ela.

Gaia ainda mamava no seio materno e, sem entender a ausência da mãe,  foi a que mais chamava por ela. “Nos primeiros dias ela levou numa boa pois tinha muita novidade e era muito paparicada na casa da avó. Mas, hoje em dia sempre chama pela mãe”, diz Tatiana.

Sala do sobrado destruída após o incêndio (Foto: arquivo pessoal)

Sala do sobrado destruída após o incêndio (Foto: arquivo pessoal)

DESTRUIÇÃO E RECONSTRUÇÃO

Por conta do quadro de Marcela e da destruição da casa, a família precisou mudar completamente a sua rotina. A cunhada de Marcela mudou com o filho e os dois filhos de Marcela para um apartamento temporariamente cedido por uma amiga enquanto Reis e a filha caçula estão na casa da mãe dele, que fica próxima ao hospital.

A casa, onde a família morava há quase dois anos, foi completamente destruída. “Voltamos para tentar recuperar algo, mas não conseguimos nem as roupas. Perdemos tudo, roupas, eletrodomésticos, meus instrumentos, objetos pessoais, materiais de trabalho”, diz Reis.

Ele conta que ainda não dá para saber como o incêndio começou. A família ainda não tem ideia de como vai recuperar a casa, que não tinha seguro. Segundo Reis, engenheiros avaliam que será preciso investir mais de R$ 200 mil apenas para recuperar o imóvel, fora as despesas para equipar e mobiliar a casa.

 

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