‘Obstinação ao parto normal leva mulheres à morte’ será tema de palestra de deputada no Cremerj

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Mulher em trabalho de parto; evento do Cremerj vai discutir aborto e parto normal (Foto: Bia Takata)

Depois de proibir médicos de acompanharem partos domiciliares e de aceitarem o plano de parto, o Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro) cria mais uma polêmica ao fazer um simpósio chamado “Parto e Aborto- Discussão de Temas Polêmicos” que uma das palestras têm o tema: “A obstinação pelo parto normal leva mulheres à morte”.

A palestra será ministrada pela deputada federal Janaína Paschoal (PSL). Entre as  principais  causas diretas de morte materna no Brasil, no entanto,  são hipertensão, hemorragia e aborto. Somente o último assunto, no entanto, será debatido no evento. 

A reportagem tentou falar com o Cremerj e com a deputada para comentarem o evento, mas não conseguiu contato com as assessorias de imprensa de ambos. Em seu site, durante a campanha eleitoral, a deputada explica que “a obstinação ao parto normal que ela se refere” é quando mulheres chegam nas maternidades públicas com 39 ou 40 semanas de gestação e são orientadas a voltar para casa.

“Se a mulher quer fazer parto cesárea é um direito dela!”, diz a deputada no vídeo, na época que ainda era candidata. “Por passar do tempo no ventre materno, a criança acaba morrendo asfixiada”, diz a deputada.
Ela ressalta que o “parto normal é lindo” e que respeita “essa nova ideologia que chegou, mas é muito fácil defender essa mentalidade quando tem maternidade particular, um bom convênio e uma equipe inteira à disposição e isso não acontece no hospital público”, diz Janaina.

A médica obstetra Melania Amorim, que é uma grande incentivadora do parto humanizado, diz que as duas primeiras causas são comuns e as mulheres continuam morrendo por falta de assistência, em todos os níveis. “Já existem medidas simples, seguras e efetivas para redução da mortalidade materna para essas causas, sendo a maioria desses óbitos preveníveis. Já no aborto, as mulheres morrem por não ter acesso ao aborto seguro e legal, ou seja, morrem por complicações graves dos abortos inseguros”, explica.

Melania ressalta que essa situação é “dramática, perversa, classista e racista porque, como vocês devem imaginar, quem está morrendo são as mulheres pobres, pardas e pretas em sua imensa maioria”. A médica observa que não alcançamos a redução da mortalidade materna prevista pelas metas do milênio e temos ainda uma razão de mortalidade materna (RMM) acima de 60 por 100.00 nascidos vivos.

“Eu gostaria muito de ver as evidências que estão utilizando para justificar a hipótese absurda de que a ‘obstinação pelo parto normal’ está levando as mulheres à morte, isso no país dos 55% de cesarianas. Onde infelizmente ainda é um privilégio ter obstinação pelo parto normal e vê-la bem sucedida. No modelo tecnocrático e intervencionista dominante, na tentativa de apropriação e controle dos corpos femininos, a realidade oscila entre extremos como cesarianas desnecessárias sem indicações médicas definidas e partos vaginais violentos, não obstante todas as tentativas de humanizar a assistência ao parto, bem-sucedidas em alguns contextos e serviços como experiências isoladas. Não há como avançar nessa discussão fora dessa perspectiva, porque culpabilizar as mulheres por suas mortes é simplesmente um absurdo”, ressalta.

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA

O evento, voltado a médicos e acadêmicos de medicina, será realizado nos dias 29 e 30 de março, no Rio. Entre as palestras que também estão programadas assuntos relacionados à violência obstétrica, entre elas, a palestra “Violência obstétrica. Ela existe?” e “Violência ao obstetra”.

A advogada Priscila Cavalcanti explica que a violência obstétrica, assim como a violência doméstica, são tristes braços da violência de gênero. “É o ato de desrespeito à mulher gestante, em trabalho de parto, parto e pós-parto, praticado no âmbito do atendimento obstétrico, por profissionais de saúde e até por familiares. Está nas leis que já temos no país. Não é violência institucional nem violência ao obstetra”, comenta a profissional.

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7 Comentários

    • Se é estressante talvez o o médico esteja na profissão errada. Todo o trabalho pode gerar estresse, mas não a ponto de fazer exigências desse tipo, com certeza um bom e dedicado profissional terá o preparo maior que o estresse, para atender toda mulher como ela merece.

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