Saiba os principais mitos que levam as mulheres para a cesárea

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Médicos retiram bebê do útero durante uma cesárea (Foto: Carolina Zia)

O Brasil é campeão mundial em cesáreas e, muitas mulheres, vão para a cirurgia sem saber se havia ou não real indicação para isso. Circular de cordão, falta de dilatação, bebê grande, bacia estreita, pouco líquido, enfim, são várias justificativas dadas para a gestante que gostaria de ter um parto normal, mas no fim da gestação não vê outra alternativa a não ser agendar o parto com o seu obstetra.

A enfermeira obstetra Thais Rodrigues Bernardo esclarece que não é um único fator que faz a maioria dos nascimentos ser feito por meio da cirurgia. “Isso ocorre também por conta da baixa remuneração dos médicos pelos planos de saúde para acompanhar o parto normal, que pode levar horas. Outro fator é o medo da mulher ter um parto violento e, é claro, a cultura enraizada no Brasil de que a cesárea é a forma mais segura, indolor e tranquila para o bebê nascer”, comenta Thais, que é parteira na Commadre, em São Paulo.

A pedido da reportagem, a enfermeira obstetra elencou os principais motivos que levam as mulheres para a cesárea e que, em muitos casos, poderia ser evitada se a parturiente estivesse sendo acompanhada por uma equipe multidisciplinar e que realmente apoie o parto humanizado.

“São inúmeros os mitos que rodeiam o parto normal. E a melhor ferramenta para não acabar em uma cesárea desnecessária é a informação!”, diz. Thais aconselha as gestantes a ler bastante, buscar grupos de gestantes virtuais ou presenciais e, se possível, buscar uma equipe e local de parto que você possa confiar. “E, se puder,  tenha uma doula! Ela será a sua melhor companhia nessa caminhada em busca do parto que você deseja”, aconselha. Saiba mais sobre o trabalho da doula clicando aqui.

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1 – MECÔNIO

O mecônio é o nome dados para as primeiras fezes do bebê. Em alguns casos o bebê elimina essas fezes ainda no útero, o que muitas vezes é usado como justificativa para a cesárea. Porém, essa eliminação pode ocorrer simplesmente porque o bebê está “maduro” e seu intestino pronto para funcionar.

Em outras ocasiões a eliminação de mecônio pode estar ligada à uma redução do aporte de oxigênio para o feto, e nesse caso a presença do mecônio torna-se um problema. “Quando isso ocorre o feto faz movimentos inspiratórios para tentar manter a oxigenação (chamado de gasping) e o líquido amniótico com mecônio pode impregnar os tecidos pulmonares, podendo trazer consequências graves para o bebê ao nascer”, explica  a parteira.

Thais afirma que é importante identificar a quantidade de mecônio no líquido (se ele é fluido ou espesso) e a vitalidade fetal durante o trabalho de parto. Se o mecônio é fluido, o bebê apresenta boa vitalidade, batimentos cardíacos sem alterações, é possível continuar com o trabalho de parto com monitoramento cuidadoso. 

2 – CIRCULAR DE CORDÃO

Entre 20% e 40% dos bebês nasce com uma ou mais circulares de cordão. Durante a vida intra uterina o bebê se movimenta todo o tempo e pode enrolar o cordão em diversas partes do corpo, inclusive no pescoço (circular cervical). “Esse é um acontecimento tão frequente que nem pode ser considerado patológico, por isso não há nenhum estudo que questione o parto normal na presença de circular de cordão na ultrassonografia”, destaca a parteira.

Ao contrário do que muitos imaginam, o bebê não se “enforca” com o cordão pois ainda não respira como nós, ou seja, ele recebe o sangue oxigenado por meio dos vasos que estão dentro do cordão, protegidos por uma espécie de geléia. “Na presença de múltiplas circulares ou circular apertada com cordão curto, pode haver maior risco de desaceleração da frequência cardíaca fetal, o que é  prontamente identificado com monitoramento adequado durante o trabalho de parto”, comenta.

3 – FALTA DE DILATAÇÃO

Para o bebê nascer é preciso  que o colo do útero, que permaneceu fechado durante toda a gravidez, abra cerca de 10 centímetros. Isso só ocorre na presença de contrações uterinas efetivas, ou seja, durante o trabalho de parto ativo. “Toda mulher dilata, desde que entre em trabalho de parto ativo, o que significa estar com contrações frequentes e longas – média de três contrações em 10 minutos. Quando uma mulher diz que não teve dilatação, significa que provavelmente que não foi dado o tempo que o corpo necessitava para dilatar”, explica.

A enfermeira obstetra comenta que isso ocorre com muitas mulheres pois elas vão cedo ao hospital, ou seja, ainda na fase latente do trabalho de parto. “Elas acabam sendo convencidas de que o processo está demorando além do esperado ou de que a dilatação não está progredindo. Na verdade é que a fase ativa do trabalho de parto ainda nem começou”.

4 – BOLSA ROTA

A bolsa formada por duas membranas (amnio e cório) em formato de um saco, repleto de líquido amniótico onde o bebê está imerso. O útero é um ambiente estéril e essas membranas são uma barreira física contra a entrada de micro-organismos que podem causar infecções. A ruptura pode ocorrer antes das contrações começarem, durante o trabalho de parto ou no período expulsivo. A conduta a ser adotada vai depender da idade gestacional e das condições maternas e fetais, segundo a parteira.

Na grande maioria dos casos é possível aguardar o início espontâneo do trabalho de parto (o que pode acontecer em poucas horas ou até alguns dias), sempre monitorando o bem estar materno e fetal. Como a principal preocupação é o risco de infecção, deve ser evitado exame de toque, e pode haver a necessidade do uso de antibiótico intravenoso para prevenção de infecção.

E quanto tempo podemos esperar após a bolsa romper? “Não existe limite de tempo determinado. As evidências demonstram que na conduta expectante existe um risco maior de infecção do que quando há indução do parto. Portanto, a conduta deve ser definida individualmente entre equipe e casal, conversando sobre as possibilidades e riscos”, explica a enfermeira obstetra da Commadre.

5 – BEBÊ GRANDE

São considerados bebês grandes (chamados de fetos macrossômicos) os bebês que pesam acima de quatro quilos ao nascer. “Os fatores associados à macrossomia fetal incluem genética, duração da gestação, presença de diabetes gestacional, obesidade materna”, diz a parteira. Ela explica que os métodos usados para estimar o peso fetal, como a ultrassonografia, tem margem de erro elevada e frequentemente esse dado subjetivo é usado para convencer a gestante de que a cesárea é a melhor via de parto.

“Os estudos mostram que o tamanho do bebê não deve ser utilizado como motivo para indução do parto nem de cesárea em gestações de risco habitual. Esse é um dado que deve ser considerado apenas em gestações complicadas por diabetes e obesidade”, diz.

6 – APRESENTAÇÃO DO BEBÊ

O bebê pode ficar de três formas dentro do útero: cefálico, pélvico ou transverso. A apresentação cefálica, onde o bebê está de cabeça para baixo, é a mais frequente e essa é a apresentação ideal para o parto normal. Na apresentação pélvica o bebê está sentado, ajoelhado ou ‘em pé’ no útero, e, na posição transversa, é quando está atravessado.

“Alguns bebês já se posicionam com a cabeça para baixo desde o início do terceiro trimestre, outros viram mais próximo da data provável do parto. Existem alguns recursos que podem auxiliar o bebê a ficar cefálico, desde os métodos mais simples como alongamentos específicos, exercícios, acupuntura, até a VCE (Versão Cefálica Externa), que é uma manobra realizada por alguns obstetras para virar o bebê dentro do útero”, comenta.

A enfermeira explica que o parto pélvico também pode ser uma possibilidade, desde que com equipe treinada e experiente na realização deste tipo de parto. Se mesmo depois de todas as tentativas o bebê permanece pélvico ou transverso, diz a parteira, não há nenhum motivo para agendar a cesárea. “O melhor é esperar o início do trabalho de parto para realizar a cirurgia, pois assim teremos certeza de que estamos respeitando o tempo do bebê, que nascerá em melhores condições de se adaptar à vida extra uterina, assim como a mãe também se beneficiará do trabalho de parto  pela ação dos hormônios que vão atuar no pós-parto e amamentação”,  orienta.

7 – BACIA ESTREITA

Não existe uma forma de atestar que um bebê não passará pela bacia de sua mãe antes de tentar. O bebê desce pela bacia fazendo um espiral, buscando a melhor forma de passar. Além do que os ossos da cabeça se sobrepõem parcialmente para diminuir o perímetro cefálico e facilitar a passagem pelo canal de parto, enquanto os ossos da pelve também têm mobilidade e vão se adaptando ao passo que o bebâ vai descendo. “Por isso também é importante que a mulher tenha liberdade para se movimentar, caminhar, ficar de cócoras, e adotar a posição mais confortável para parir”, orienta a parteira.

Thais explica que só é possível dizer que o bebê não passa pela pelve quando a parturiente atinge a dilatação total por algumas horas e, mesmo com uso de todos os recursos, como exercícios, alongamentos e analgesia, não há progressão do bebê no canal de parto.

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