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Precisamos falar sobre abuso sexual infantil

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By Giovanna Balogh on 23 de outubro de 2015 Infância
Cartaz de campanha do governo federal pede que casos sejam denunciados (Foto: Divulgação)
Cartaz de campanha do governo federal pede que casos sejam denunciados (Foto: Divulgação)

“Meu padrasto ficou responsável por cuidar de mim enquanto minha mãe foi resolver algo naquele dia. Ele, que estava lá para me proteger, abusou sexualmente de mim. O pior é que o perigo estava dentro da minha própria casa e colocado lá pela pessoa que mais me amava no mundo: minha mãe.

Fui abusada  dos quatro aos nove anos de idade com certa frequência. Depois, dos nove aos 12, os abusos diminuíram porque minha mãe e ele já tinham se separado, mas não acabaram, já que minha mãe insistia que eu fosse visitá-lo semanalmente. ‘Você tem que ser presente com ele que sempre te tratou como uma filha’, minha mãe me dizia.

Eu não tinha coragem de contar a ela o que se passava quando ela saía. Não preciso nem dizer o quanto esse trauma influenciou e continua influenciando minha vida amorosa, sexual e afetiva. Vivi até este ano com isso só pra mim, me sentindo suja, culpada, e ainda em dúvida sobre se não era eu a ‘safada’ da história”.

O relato acima é de uma jovem de 27 anos que somente após conversar com uma amiga teve coragem de expor sua história que é mais comum do que imaginamos. O abuso na infância acontece dentro de casa, dentro da escola, nas ruas. Como são pequenas e inocentes, as crianças têm dificuldade em  reconhecer e nomear os abusos – coisa que normalmente só ocorre já na vida adulta. Muitas vítimas não denunciam seus agressores pois são constantemente ameaçadas por eles.

Foi o que aconteceu com a jovem Ana Luísa, 23, que aos 10 anos foi abusada por seis meses dentro do colégio particular onde estudava. O agressor era um colega, de 16 anos, e os pais só foram saber o que a filha passou no ano passado quando a própria jovem pediu para a sua psicóloga relatar o que desencadeou a sua depressão.

No início, os pais achavam que a depressão era cansaço, estresse na reta final da faculdade e não que a única filha pudesse ser mais uma vítima.

A mãe de Ana, a empresária Ana Rosa Augusto Rodrigues, 49, conta que na época a filha passou a se vestir com roupas largas, pretas e mais masculinas. “Ela tinha vergonha do episódio, achava que eu não a perdoaria. Se sentia culpada pelo que aconteceu”, conta a mãe, que nos últimos quatros anos se dedicou para ajudar a filha a se recuperar da depressão profunda.

Tratamento com psiquiatra, psicólogo e tomando os antidepressivos mais modernos não foram suficientes para impedir que Ana Luísa acabasse com a própria vida em julho deste ano. “Diversas vezes ela me disse que não aguentava mais viver com as lembranças do abuso”, diz a mãe, que após divulgar o caso da filha nas redes sociais tem recebido mensagens de vítimas de abusos sexuais.

Nos relatos que recebeu a história é sempre a mesma: o abusador é alguém próximo e que ameaça matar a vítima ou os pais dela. Os casos de abusos são tão recorrentes que nesta quinta-feira (22) foram mais de 29 mil tweets com a hashtag #PrimeiroAssedio, que foi uma campanha lançada no dia anterior pelo coletivo feminista Think Olga. A ação faz parte da Chega de Fiu Fiu, campanha que luta contra assédio sexual em locais públicos. Mulheres de todo o país dividiram suas histórias sobre as violências sexuais que viveram durante a infância. A hashtag ficou entre os trendings topics.

Os relatos são impressionantes e mostram como a sexualização das meninas começa desde muito cedo.  A campanha foi motivada após uma participante do programa MasterChef Jr. ter sido alvo de mensagens com teor sexual explícito, mesmo tendo apenas doze anos.  A nossa sociedade precisa parar de ver nossas crianças como objetos sexuais.

Apesar de a campanha ter sido recebida com uma grande adesão, há quem faça piada do assunto, entre eles, famosos como o cantor Roger Rocha Ribeiro, vocalista da banda “Ultraje a Rigor”. Utilizando a hashtag em tom de deboche, ele escreveu:

“#PrimeiroAssédio Acho que tinha uns 10 anos. Uma empregada me deixou pegar nos peitos dela. Foi bom pra cac***”, escreveu o artista no Twitter.

Uma coisa é fato: o  abuso sexual das nossas crianças não terá fim enquanto for tratado como piada. O homem precisa parar de se sentir ‘protegido pela cultura do estupro’ que erotiza nossas meninas desde cedo fazendo com que o assédio aconteça.

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SOBRE A AUTORA
Giovanna Balogh Autora do livro infantil "O Mamá é da Mamãe", que fala sobre o desmame gentil, a jornalista Giovanna Balogh, 41, passou a fazer reportagens sobre parto, aleitamento materno e direitos das mulheres após a maternidade. Ela é mãe de Bento, Vicente e Teresa. Formada em 2002 pela UMC (Universidade de Mogi das Cruzes), trabalhou de novembro de 2005 a abril de 2015 na Folha de S. Paulo onde ocupou diferentes funções. Também foi repórter por três anos do extinto Jornal da Tarde. Após a maternidade, passou a focar sua carreira em saúde materno-infantil. Para entender e escrever melhor nesta área, fez formação como doula, instrutora GentleBirth e consultora em aleitamento materno. Atualmente é responsável pela Agência Mexerica e é pós-graduada em Marketing de Influência na PUC-RS.
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