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Crianças precisam ter tempo livre para brincar

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By Giovanna Balogh on 16 de maio de 2016 Cuidado com os filhos, Infância
Crianças precisam ter tempo para o chamado brincar livre (Foto: Gabi Trevisan)
Crianças precisam ter tempo para o chamado brincar livre (Foto: Gabi Trevisan)

João faz aula de natação duas vezes por semana, futebol outras duas, inglês, reforço de matemática e xadrez. Nas poucas horas que passa em casa gosta de passar o tempo mexendo no tablet ou vendo TV. O mundo acelerado e cheio de compromissos que vivem os pais está cada vez mais cedo atingindo as crianças que fazem cursos e mais cursos extra curriculares sobrando pouco tempo para o que de fato deveriam fazer: brincar.

Muitos pais acreditam que quanto mais cedo as crianças forem estimuladas serão profissionais mais bem preparados no futuro. “O mundo contemporâneo não respeita o ritmo humano necessário para o pleno desenvolvimento do ser. Isso traz muito mais consequências negativas e profundas do que se imagina e, infelizmente, passam despercebidas, inclusive, pela falta de tempo para refletir sobre esses efeitos nocivos”, comenta  Andressa Pellanda, membro do conselho deliberativo da Aliança pela Infância no Brasil.

Por conta dessa vida acelerada vai desaparecendo aos poucos o tempo de brincar.  “O culto ao veloz e a noção de que o brincar é perda de tempo substituiu o âmago pelo desenvolvimento integral das crianças como seres humanos complexos”, comenta.

Quanto mais cedo a criança deixar de brincar de maneira espontânea e com prazer, mais cedo ela entrará no mundo do adulto e a compartilhar das pressões e preocupações presentes neste mundo. “Isso desrespeita e nega suas vontades presentes e rouba justamente o que é mais valioso para ela, o seu tempo de ser criança”, diz.

Vamos propor um teste para quem está lendo esse texto. Volte na sua memória e lembre quando você era criança e o que te dava prazer brincar. Pega-pega, esconde-esconde, taco, carrinho de rolimã, pega varetas, peteca, bola, subir em árvore, pisar descalço na grama ou na terra.

“Agora pense nas crianças que conhece hoje. Do que e onde elas brincam? Quais são seus brinquedos? Não me surpreenderia se tablets, computadores, televisões e vários brinquedos de plástico coloridos, com luzes, e barulhos tenham tomado conta de sua cabeça”, ressalta Andressa, que comenta ainda que a crescente massificação do consumismo tem ocupado a vida das famílias, inclusive, das crianças.

Atualmente as crianças com a mídia (TV e internet) e brinquedos super estruturados sentam e absorvem tudo sem a oportunidade de questionar, de fazer uma diferenciação e de ter um distanciamento crítico. Fora que cada vez mais as crianças acabam sendo sedentárias brincando pouco ao ar livre e também  deixam de fora o brincar livre. “Isso se mostra desastroso no desenvolvimento humano”, comenta.

Claro que não dá para criar um filho “em uma bolha” sem contato com as tecnologias, mas é preciso delimitar o tempo que tablets e TVs serão usados e, é claro, um diálogo permanente com essa criança.

“Precisamos conversar para que ela também possa ser imersa em outros valores, que façam um contra balanço daquilo que lhe é bombardeado todos os dias, em diversas esferas. É dessa forma que se desenvolve um olhar crítico na própria criança que, somado à sua experiência com o brincar livre (que deve existir sempre), fazem dela um sujeito de suas escolhas.Assim, fica o convite a apreendermos esse ensinamento: não necessariamente o que pisca e está posto é o melhor. Muito pelo contrário.”

Outro fato importante  a ser considerado é que a era dos “brinquedos em série”, com brinquedos de plástico, ou cheios de luzes e sons e que praticamente brincam sozinhos.  “A maioria dos brinquedos são feitos de plástico, o que limita o contato sensorial das crianças com os mais diversos tipos de sensações e experimentações, como com o calor da madeira, a fluidez dos líquidos, das tintas, das massinhas de modelar, limitando seu conhecimento de mundo”, afirma.

Andressa ainda ressalta que os efeitos nocivos da publicidade prejudiquem as crianças pois faz com que elas desejem tudo o que aparece na propaganda. “A publicidade apresenta uma série de desejos às crianças, como se a posse de tais produtos trouxesse o gozo e a solução para tudo, contribuindo para esse sentido de consumo ligado a uma existência ‘melhor’”.

A crítica que se faz hoje é tanto pelo brincar muito estruturado – com brinquedos que não permitem essa liberdade da criança em criar, se reiventar e reiventar o mundo ao seu redor -, quanto por aquele imerso em um sistema de consumo, ou até pela falta de tempos e espaços para a criança brincar livremente.

Por conta desses e de outros fatores que a Aliança pela Infância criou a Semana Mundial do Brincar, que acontece entre 22 e 28 de maio. “Foi criada a semana para lembrar, principalmente os adultos, que o brincar é muito importante e que ele está perdendo-se diante de um mundo acelerado, que vem perdendo o respeito a essa atividade intrínseca ao desenvolvimento humano.”

A ideia é que as pessoas organizem atividades gratuitas que estimulem as brincadeiras ao ar livre. O tema da Semana Mundial do Brincar 2016 é “O brincar que encanta o lugar”  e já conta com uma programação ampla em várias cidades. Confira aqui as atrações. 

 

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SOBRE A AUTORA
Giovanna Balogh Autora do livro infantil "O Mamá é da Mamãe", que fala sobre o desmame gentil, a jornalista Giovanna Balogh, 41, passou a fazer reportagens sobre parto, aleitamento materno e direitos das mulheres após a maternidade. Ela é mãe de Bento, Vicente e Teresa. Formada em 2002 pela UMC (Universidade de Mogi das Cruzes), trabalhou de novembro de 2005 a abril de 2015 na Folha de S. Paulo onde ocupou diferentes funções. Também foi repórter por três anos do extinto Jornal da Tarde. Após a maternidade, passou a focar sua carreira em saúde materno-infantil. Para entender e escrever melhor nesta área, fez formação como doula, instrutora GentleBirth e consultora em aleitamento materno. Atualmente é responsável pela Agência Mexerica e é pós-graduada em Marketing de Influência na PUC-RS.
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